Mas a sua tendência impressionista revela-se, também, em belos poemas como “De tarde” onde é retratado um cenário campestre em que se movem “burguesas” que participam numa merenda e onde se vem destacar uma rapariga simples com um “ ramalhete rubro de papoulas”, cuja “aguarela” faz lembrar o belo quadro do célebre pintor francês, Manet “Déjeuner sur l´herbe”.
Cesário Verde
Vida, Obra, Evolução poética, Realismo
POR OUTRA FFOTO
Vida e obra
Nasceu em Lisboa em 25 de Fevereiro de 1855
O pai tinha uma casa comercial e era lá que passava a maior parte do seu tempo
A família tinha uma quinta em Linda-a-Pastora e foi lá que viveu a sua infância em contacto com a natureza
A sua visão do campo é colhida na realidade por ele observada
Contactou com a gente simples da aldeia que, mais tarde, recorda já em Lisboa, através da sua poesia
Estudou em Lisboa indo a pé, diariamente, de Linda-a Pastora até à Cruz Quebrada, onde tomava o transporte (o Americano) para Lisboa
A partir de 1882 suspendeu, praticamente, a sua atividade por se encontrar doente: era débil e estava tuberculoso.
Colaborou nos mais importantes jornais e revistas de Lisboa, Porto e Coimbra.
Sentiu-se sempre um incompreendido e foi criticado, por Ramalho Ortigão nas “Farpas” embora, mais tarde, se tenham tornado amigos.
Em 1884, Cesário está irremediavelmente doente e procura, nos bons ares de Linda-a- Pastora, algum refúgio para os seus males.
Morreu em 1886, em Lisboa, sem ver realizada a sua maior ambição de escritor: a publicação em volume dos versos que escreveu.
Silva Pinto posteriormente (1887), reuniu as suas poesias e publicou-as sob o nome “ O Livro de Cesário Verde”.
Anti romântico por excelência, tanto do ponto de vista estético, como político e social
Fez uma revolução poética, mas tendo sido um republicano ativo durante toda a vida, foi mais conhecido e mais respeitado, na época, pela sua atividade política do que pela atividade literária.
Cesário Verde
Evolução poética
Primeira fase (1873-74): a “Crise Romanesca”- o idealismo romântico mas já com tendências literárias e estéticas inovadoras.
Ex. “Repouso” e “Esplêndida”.
Segunda fase (1875-76): o anti romantismo e o naturalismo.
Ex. “Humilhações” e “Contrariedade”.
Terceira fase: (1877-89): a maturidade- “O real e a análise”- o campo e a cidade.
Ex. “Nós” e “O sentimento dum Ocidental”.
Aspetos realistas mais relevantes da poesia de Cesário Verde
(Síntese)
- Observação crítica do que o rodeia;
- Oposição campo/cidade;
- Denúncia de injustiças sociais;
- Exatidão geométrica na construção de poemas (regularidade métrica, estrófica e rimática);
- Visualismo: mostra a realidade objetiva e o quotidiano, mas também subjetividade;
- Gosto pelo pormenor.
II
Parte prática
Teste /perguntas /sugestões de respostas
Teste nº 1
Cesário Verde e Fernando Pessoa
Citação
Fernando Pessoa, pela boca do seu heterónimo, Alberto Caeiro, disse que Cesário Verde era “... um camponês que andava preso em liberdade pela cidade”.
Comentário
Só um génio como Fernando Pessoa conseguiria sintetizar, numa pequena frase, todo o conceito de vida de Cesário Verde.
Tendo vivido grande parte da sua vida desfrutando dos prazeres do campo, Cesário Verde, apreendeu essas delícias, bem como conheceu bem as gentes simples pelas quais se encantou. Por isso, ao ir viver para a cidade, (Lisboa) o embate psicológico foi muito duro: “um camponês” que ama a simplicidade e a pureza das gentes com as quais se habituou a conviver, embora cidadão livre, tem dificuldade em se adaptar, inserir, no “modus vivendi” da sociedade lisboeta, porque era o seu oposto. Daí o antagonismo focado por Fernando Pessoa: liberdade /prisão.
A poesia de Cesário Verde denota a preocupação com o mundo que o rodeia quando, nas suas deambulações pela cidade, descreve ambientes citadinos (bairro chique com “casas apalaçadas”, “jardins”, “larga rua”) e aí insere elementos relacionados com o campo (vendedeira de legumes “esguedelhada e feia”, frutos personificados em cujas “ faces duns alperces” vem bater, com desprezo um “ cobre lívido”).
O poeta coloca-se nestes cenários e não se limita a dar a conhecer o que o circunda, não é um simples parnasiano- não é imparcial, nem impessoal, nem impassível. Pelo contrário inclui-se no que pinta, sofre com o que observa (injustiças sociais, por exemplo) e revela os seus sentimentos e sensações que, por vezes, lhe “despertam um desejo enorme de sofrer”.
São célebres poemas como “O sentimento dum Ocidental” onde, ao anoitecer, as ruas são soturnas e melancólicas, com sombras, o céu “baixo e de neblina” e onde as varinas vão “correndo com firmeza”. A observação destas realidades provoca-lhe melancolia, desejo de sofrer, de partir. Também em “Contrariedades” o poeta revela o seu estado emocional derivado da observação de uma sociedade desumana que abandona os doentes de que a tuberculosa engomadeira é exemplo e os poetas aos quais (como é o seu caso) os jornais recusam a publicação dos seus versos.
Mas a sua tendência impressionista revela-se, também, em belos poemas como “De tarde” onde é retratado um cenário campestre em que se movem “burguesas” que participam numa merenda e onde se vem destacar uma rapariga simples com um “ ramalhete rubro de papoulas”, cuja “aguarela” faz lembrar o belo quadro do célebre pintor francês, Manet “Déjeuner sur l´herbe”.
Como se pode verificar pelo exposto, a cidade é conotada com aspetos negativos enquanto o campo surge, antagonicamente, como lugar de refúgio, superação das humilhações, de saúde, alegria como se pode concluir pela leitura de poemas como “ Nós”.
São as recordações de uma infância alegre e saudável, passada em Linda-a-Pastora, que fazem de Cesário Verde “um preso em liberdade pela cidade”.
Teste nº 2
Cesário Verde
Poema "De tarde" e sugestões de análise
Mais morta do que viva, a minha companheira
Nem força teve em si para soltar um grito;
E eu, nesse tempo, um destro e bravo rapazito,
Como um homenzarrão, servi-lhe de barreira!
Em meio de arvoredo, azenhas e ruínas,
Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
E, tetas a abanar, as mães, de largas ancas,
Desciam mais atrás malhadas e turinas..
Do seio do lugar – casitas com postigos -
Vem-nos o leite. Mas batizam-no primeiro.
Leva-o de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
Cujo pregão vos tira ao vosso sono, amigos
Nós dávamos, os dois, um giro pelo vale:
Várzeas, povoações, pegos, silêncios vastos!
E os fartos animais, ao recolher dos pastos,
Roçavam pelo teu «costume de percale».
Já não receias tu essa vaquita preta,
Que eu segurei, prendi por um chavelho? Juro
Que estavas a tremer, cosida com o muro,
Ombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!
Cesário Verde
Sugestões de análise
Tema
Recordação de um passeio pelo campo.
Desenvolvimento
Introdução
O sujeito poético, em adulto, recorda um passeio que fez pelo campo, quando ainda era bastante jovem "rapazito" e o encontro que aí teve com uma menina que também dava "um giro pelo vale".
O aproximar de umas vacas, a pastar, veio revelar a valentia do "rapazito" e o medo da menina.
Atitudes da menina
Ela "cozida ao muro", "a tremer de susto" só porque se aproximava uma "vaquita preta".
O rapaz
Forte, destemido, decidido e ágil pois, apesar da sua pouca idade, segurou a "vaquita preta", "por um chavelho", para defender a menina.
Portou-se " como um homenzarrão".
ela
Ao contrário, dele ela "nem força teve para soltar um grito"
estava "a tremer cosida ao muro (...) medrosa e fina"
vestida com "percale".
Atitudes da menina
Pelas atitudes dela e pela sua forma de vestir (percale é um tecido fino e caro) e porque o sujeito poético faz questão de informar que ela usava "luneta", (na altura só as pessoas de condição mais elevada tinham dinheiro para comprar óculos), a menina pertenceria a gente "fina" ( rica),
Menina
Pertencia a gente pobre
Menino
Pertencia a família mais abastada
Ano/epoca dos acontecimentos
Este é o tempo do passado,
ou seja, há anos atrás quando as duas personagens eram crianças.
Tempo presente
Agora, (já adultos), ter-se-ão reencontrado e recordam o passado em comum, porque o sujeito poético pergunta à "companheira" se ainda receia uma "vaquita preta" como outrora.
Importância de informação de costumes da época????
Cesário Verde apresenta uma panorâmica muito sugestiva do quotidiano rural através, essencialmente, de
sensações visuais (de cor) bezerrinhas "brancas, malhadas" ; vaquita "preta",
Valor expressivo dos adjetivoa
Servem para caraterizar o aspeto físico dos animais. As sensações visuais (de movimento) são sugeridas pela utilização de verbos como "pulavam/, desciam/dávamos(...) um giro".
Sensações auditivas
no som da voz do leiteiro, quando apregoa o leite.
Caraterizaçaõ do valwe onde se desenrolaram os asuntos
O vale é caraterizado de perto com os seus "arvoredos", uma "fonte", "pastos", "azenhas e ruínas" e mais ao longe sobressaem as "Várzeas, povoações, pegos".
Ali perto haveria uma aldeia de camponeses, pois o sujeito poético refere "umas casitas com postigos".
O diminutivo "casitas" sugere pobreza até porque as "casitas" nem tinham janelas mas, apenas, "postigos".
Atitude do sujeoto poético em relação ao que o rodeia
Tal como Cesário Verde também o sujeito poético demonstra apresso pelo campo, além disso é de lá que vem o leite para alimentar as pessoas da cidade. O leiteiro levanta-se demasiado cedo pois leva o leite "de madrugada" e, quando chega, ainda os citadinos dormem "acordando os preguiçosos" com o seu pregão.
Nota curiosa ‘’’+++
Cesário verde revelar que o leite era "batizado", isto é, os criadores das vacas, acrescentavam-lhe água para dar mais um pouco de lucro!
Escola literária subjacente ao poema
Parnasianismo (realismo na poesia) pois Cesário Verde relata-nos objetiva e pormenorizadamente, o ambiente campestre. No entanto a par desse realismo, Cesário Verde deixa fluir a sua subjetividade pelo carinho que revela pelo campo,pelos animais e pelas pessoas que nele viviam.
Teste nº 3
Cesário Verde
Poema
"Naquele pic-nic de burguesas" e sugestões de análise
Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A un granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima de uns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.
Cesário Verde
Sugestões de análise
O poema divide-se em três partes lógicas onde algo do passado do sujeito poético é relembrado. Este recurso ao uso da memória é indicado pela utilização de tempos verbais no passado como, por exemplo, logo na primeira estrofe, o pretérito perfeito“ Houve” e o pronome demonstrativo “Naquele”.
A primeira quadra constitui a introdução do poema onde o sujeito poético apresenta o assunto sobre o qual vai incider o desenvolvimento do mesmo: uma merenda ao ar livre, um “pic-nic de burguesas”, onde algo de extraordinário se terá passado, visto que “houve uma coisa simplesmente bela” que “dava uma aguarela”.
A segunda parte é composta pela segunda e terceira quadras onde se descreve o pic-nic propriamente dito. A quarta estrofe refere-se à “coisa simplesmente bela” que provocou, no sujeito poético, o “supremo encanto” daquela merenda: “o ramalhete rubro de papoulas”.
Verifica-se a existência de categorias próprias do discurso narrativo, de que se destaca a referência à localização espacial (campo), “Um granzoal”; “ em cima duns penhascos”; ao tempo, “de tarde”, “pouco depois…/…inda o sol se via”; às personagens, “ burguesas”, “tu”, “nós”; à ação, um “pic-nic”, “descendo do burrico, /Foste colher”, “ Nós acampámos”. Assim, nasce o primeiro quadro (2ª e 3ª estrofes) com a movimentação da personagem que desceu do burrico para colher papoulas e o desenrolar do pic nic em cima dos penhascos.
Existem, igualmente, manifestações de feição descritiva e pictórica que acentuam a subjetividade do autor: sensações visuais: “uma aguarela”; "granzoal azul de grão de bico”; "um ramalhete rubro de papoulas”; “damascos”; sensações gustativas: “pão de ló molhado em malvasia”; comparação: "dos teus dois seios como duas rolas”.
Mas todo o dinamismo anteriormente focado quase desaparece na última estrofe porque “a sair” significa uma ação lenta, (como se lá estivesse a forma verbal-o gerúndio: saindo) e a forma verbal no imperfeito (“era”) praticamente anula o conceito de ação. Dá-se uma paragem na ação do pic nic. A adversativa "mas" vem revelar o “supremo encanto da merenda”: o “ramalhete rubro das papoulas” e nasce a imobilidade plástica de “uma aguarela”.
É claro que todo o enquadramento campestre e o pic nic apenas servem de pano de fundo ao ponto fulcral de todo o quadro: “o supremo encanto da merenda”, ou seja, o ramalhete das papoulas ao qual é atribuída conotação de sensualidade, pois não é por acaso que é colocado a sair dos “seios” da menina.
Assim sugiu a "aguarela" que nos faz lembrar o célebre quadro "Déjeuner sur l' herbe", do pintor francês, Manet.

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