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António Ferreira escritor português do séc. XVI
Poema
Se meu desejo só é sempre ver-vos,
Que causará, senhora, que em vos vendo
Assi me encolho logo, e arrependo,
Que folgaria então poder esquecer-vos?
Se minha glória só é sempre ter-vos
No pensamento meu, porque em querendo
Cuidar em vós, se vai entristecendo?
Nem ousa meu esprito em si deter-vos?
Se por vós só a vida estimo, e quero,
Como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?
Não sei entender o que em mim mesmo vejo.
Mas que tudo é amor, entendo, e creio,
E no que entendo, e creio, nisso espero.
Sugestões de análise
Tema:
As contradições do amor
António Ferreira apresenta, através deste soneto, o mundo de contradições que o amor pode causar nos que amam. O sujeito poético deseja estar sempre a ver a mulher amada, por isso não compreendo a sua inibição na presença dela. Se pensar nela é a única razão de ser da sua vida (a sua glória), porque se entristece, quando o pensamento se ocupa dela? Como pode querer, ao mesmo tempo viver e morrer por ela? Onde está o meio termo de tudo isto? Ele não se compreende. Apenas têm a certeza de uma coisa: o que sente é amor.
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