Coleção
APRENDER É FÁCIL
LITERATURA PORTUGUESA
VOL. II
FERNÃO LOPES
(De acordo com o programa do 10º ano)
A coleção, APRENDER É FÁCIL, já tem publicado um ebook sobre Poesia trovadoresca: 38 perguntas e respetivas respostas e 33 Cantigas medievais e a respetiva análise.
Não percam os próximos volumes: Gil Vicente, Camões lírico e épico, os Mais de Eça de Queirós, Fernando pessoa, Cesário Verde e outros escritores do programa de estudos do Ensino Secundário.
I parte
Vida e obra
Índice
Introdução
Dados biográficos
Profissão
Carreira de cronista
Obras que escreveu
Caraterísticas medievais presentes nas Crónicas
Contributo de Fernão Lopes para o enriquecimento da prosa medieval
Visão da realidade histórica
Originalidade
O artista/estilo
As personagens
O papel do cronista segundo Fernão Lopes: imparcialidade
O papel do cronista segundo os cronistas anteriores a Fernão Lopes: parcialidade
As fontes documentais
A visão literária das Crónicas
Estilo e composição das Crónicas
A crise de 1383-1385
Um pouco da História de Portugal ligada à crise de 1383-1385 e ao Mestre de Avis
O mestre de Avis visto por Fernão Lopes
Prólogo da Crónica de D. João I - explicação do conteúdo
Partes que compõem o Prólogo e respetivo assunto
´´
II
Aplicação prática
Índice
Teste 1: Excerto do Prólogo da Crónica de D. João I – notas explicativas /questionário / sugestões de resposta
Teste 2: Citação de Hernani Cidade a propósito de Fernão Lopes / sugestões de resposta
Teste 3: Composição: “O herói em Fernão Lopes” / sugestões de resposta
Teste 4: Citação de Alexandre Herculano sobre Fernão Lopes / sugestões de resposta
Teste 5: Excerto da Crónica de D. João I (cap. XI) / notas explicativas / questionário / sugestões de resposta
Teste 6: Excerto da Crónica d D, João I / notas explicativas / questionário /sugestões de resposta
Teste 7: Excerto da Crónica de D. João I (cap. CXLVIII) / notas explicativas / questionário / sugestões de respostas
I Parte
Vida e obra de Fernão Lopes
Introdução
Foi a maior personalidade da literatura medieval portuguesa.
É com ele que se inicia a série de cronistas gerais do reino.
Cronista-mor durante mais de 20 anos.
Relatou acontecimentos surpreendentes do século XIV e XV.
Dados biográficos
Deve ter nascido entre 1380 /1390
Profissão
-Tabelião
- Empregado da família real e da corte
- Escrivão de D. Duarte, D. João I, Infante D. Pedro
- Guarda-mor da Torre do Tombo (1418)
- Reformou-se em 1454
Atravessou os reinados de D. João I, D. Duarte, o governo de D. Pedro e parte do reinado de D. Afonso V (sempre em atividade).
Conheceu múltiplas transformações políticas e sociais.
Carreira de cronista
- Começou em 1419 (ou antes).
- Só em 1434 aparece referência oficial ao seu cargo de “pôr em crónica as histórias dos reis que antigamente foram em Portugal” e os feitos de D. João I.
- É substituído, no cargo, por Gomes Eanes de Zurara e é este que já termina a sua última obra: a 3ª parte da crónica de D. João I.
Obras que escreveu (restam-nos apenas três)
. Crónica de El-rei D. Pedro
. Crónica de D. Fernando
. Crónica de D. João I (1ª e 2ª partes)
Caraterísticas medievais presentes nas Crónicas de Fernão Lopes
- O relevo dado às caraterísticas individuais de algumas personagens
Exemplo: D. Leonor Teles, o Tamoeiro, o Rei de Castela
- O predomínio do movimento sobre a análise descritiva
- O pormenor com que trata certos episódios secundários
- O uso de adjetivos que servem apenas para classificar e não para descrever e analisar
Exemplo: a descrição da formosura de D. Leonor Teles
Contributo de Fernão Lopes para o enriquecimento da prosa medieval
Caraterísticas inovadoras
A obra de Fernão Lopes representa um grande avanço em relação à historiografia medieval anterior a ele:
- Assimila as tradições dos cronistas anteriores, mas enriquece-as e, por isso, foi considerado o primeiro prosador português de quem se pode dizer que “o estilo individualiza o homem”;
- Narra os acontecimentos com muitos pormenores;
- Imprime visualismo;
- Marcas de subjetividade: apresenta comentários pessoais aos acontecimentos sobre os quais escreve;
- Enquanto os cronistas anteriores normalmente só relatavam a corte e a sua vida íntima (bodas, intrigas e conjuras palacianas), Fernão Lopes foca toda a sociedade portuguesa do séc. XIV e XV.
A par dos acontecimentos da corte são múltiplos os aspetos da vida que ele refere:
. o interior das cortes com os seus tipos psicológicos;
. a praça pública movimentada e ruidosa, percorrida por enchentes humanas;
. o acampamento da batalha;
. as cidades em festa.
Esta variedade e animação nos aspetos e episódios de todo um mundo dão à sua obra um interesse espetacular, teatral.
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Visão da realidade histórica / Originalidade / O estilo
- A maior grandeza de Fernão Lopes deve-se à sua visão multifacetada dos aspetos coletivos da vida nacional;
- Com o seu discurso original, que consiste num magnífico estilo coloquial (ele próprio lhe chama “falamento”), Fernão Lopes trava uma espécie de diálogo com os seus leitores pois faz-lhes perguntas; usa exclamações; apela à sua imaginação e simpatia.
A originalidade revela-se também, muito particularmente, na composição das crónicas: Fernão Lopes procurou ordenar a matéria em grandes conjuntos animados.
As personagens coletivas
O povo é a personagem principal nas obras de Fernão Lopes
- Fernão Lopes trata a coletividade como se fosse uma pessoa querida e mostra a sua simpatia pelo povo.
Para atingir os seus objetivos o cronista serviu-se de vários recursos
- Capítulos inteiros dedicados a relatar o estado de espírito do povo português quando os castelhanos invadiram Portugal
Exempos:
. a esperança de que a frota castelhana fosse derrotada;
. o medo da vitória dos castelhanos;
. a devoção a Deus;
. as lágrimas;
. o resumo de um sentimento coletivo, através da voz do Tanoeiro que simboliza a posição da gente miúda de Lisboa (povo) face à burguesia;
. a mulher em Santarém que fala em voz alta representando a voz de todos;
. as cantigas cantadas em Lisboa durante o cerco que simbolizam a vontade de uma cidade inteira.
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O papel do historiador segundo Fernão Lopes
Imparcialidade
- Para o cronista a história é a narração verídica dos factos.
- A verdade deve sempre mostrar o juízo do historiador que não deverá deixar-se influenciar pelo patriotismo exagerado “mundanal afeiçon” ou por quaisquer outras ideias pessoais;
- O mais importante não é a “fomosura” e novidade das palavras mas a verdade dos factos que narra.
O papel do historiador segundo os cronistas anteriores
Parcialidade
Fernão Lopes critica os historiadores anteriores a ele pela sua parcialidade e aponta as razões
- Eram parciais, ou seja, não contavam toda a verdade dos factos sobre os quais escreviam: exageravam os aspetos positivos e omitiam ou diminuíam os negativos.
Razões da parcialidade
- “afeiçom” à terra (patriotismo);
- Dedicação aos parentes;
- Razões de ordem sócio-económica, porque eram pagos para escrever, ou deviam favores aos senhores a propósito de quem escreviam, “mormente dos senhores em cuja mercee e terra viviam.”
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Como Fernão Lopes aplicou o seu conceito de história
Imparcialidade
As Fontes
Para nos transmitir “toda a certidon da verdade”, ou seja, para chegar à verdade, Fernão Lopes consultou muitas fontes
- A sua própria experiência política: a revolução popular de 1418-1439 (viu a multidão a agitar-se numa situação idêntica, um século antes);
- Documentos avulsos;
- Pergaminhos de vários cartórios;
- Bulas papais;
- Inscrições em campas;
- Bibliotecas;
- Livros de diversas línguas;
- Contactos diretos com pessoas que tinham vivido os acontecimentos.
Um pouco da História de Portugal para melhor compreensão do conteúdo da Crónica de D. João I
Crise de 1383-1385 = período em que Portugal estava sem Rei.
Razões da crise
D. Fernando que era Rei de Portugal faleceu. D. Leonor Teles assumiu a regência do Reino e proclamou rainha de Portugal a sua filha D. Beatriz que era casada com o rei de Castela. Esta situação punha em perigo a independência de Portugal. O povo português revoltou-se e o Mestre de Avis, aclamado Regedor e Defensor do Reino, assumiu a chefia do movimento contra os castelhanos.
O rei de Castela invadiu Portugal e cercou Lisboa por terra e por mar. O povo, comandado pelo Mestre de Avis, resistiu heroicamente durante meses, até que as tropas castelhanas levantaram o cerco e saíram de Portugal.
Em 6 de Abril de 1385, reuniram as Cortes de Coimbra para escolher o novo Rei. A escolha recaiu sobre o Mestre de Avis que ocupou o trono com o nome de D. João I.
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Momentos-chave da revolução
- O papel decisivo do povo na nomeação do Mestre de Avis;
- Preparação do cerco de Lisboa;
- A miséria devido à falta de mantimentos durante o cerco e a coragem e determinação do povo que luta atá à morte.
O Mestre de Avis
- Mestre de Avis (1357-1433) foi aclamado rei de Portugal (D. João I) em 1385.
- Com o apoio de Nuno Álvares Pereira e dos aliados ingleses travou a Batalha de Aljubarrota contra o Reino de Castela que invadira o país.
- Devido a essa vitória Castela retirou-se, acabando bastantes anos mais tarde por o reconhecer oficialmente como rei.
- Em 1415, conquistou Ceuta, praça estratégica para a navegação no norte de África, o que iniciaria a expansão portuguesa.
O Mestre de Avis visto por Fernão Lopes
Ao longo das crónicas a figura do Mestre de Avis surge-nos complexa e, por vezes, contraditória:
- Homem vulgar; comum; apresentando, como qualquer outro ser humano, momentos de fraqueza a par de outros de grande valor;
Exemplos
- Momento de medo quando um dia D. Leonor tentou assassiná-lo;
- Perplexo por ocasião da conjuntura (sentença de morte) contra o conde de Andeiro, primeiro retraiu-se, escapou-se a caminho do Alentejo com receio do Conde de Andeiro mas, depois, em nome da pátria foi ele próprio que apunhalou o Conde de Andeiro.
- Mostra-se diminuído pela figura do Condestável que lhe desobedece;
- Surge também traído pelos grandes fidalgos e derrotado, em diversos cercos, por culpa sua;
- Alvejado por ditos e gracejos de censura ou, em momentos de fúria cega, cometendo atos de crueldade inútil, por exemplo, comendo três pratos de
carne, quando todo o acampamento sofria de fome;
Capaz de atos nobres espontâneos, inspirados pelo sentimento
Exemplo:
- Receoso da vingança do Conde de Andeiro tenta embarcar para Inglaterra mas muda de atitude perante os pedidos da população de Lisboa;
- Sensível ao sofrimento dos outros, chora à beira de um cavaleiro ferido a quem os médicos mandaram beber da própria urina para se salvar. Para lhe tirar a repugnância e dar coragem toma ele próprio a bacia e bebe a urina;
- Fernão Lopes não nos apresenta um Rei mas um homem, talvez o homem mais humano da sua obra.
Crónica de D. João I
Síntese
1ª parte: Fernão Lopes narra os acontecimentos desde a morte do rei D. Fernando até D. João I subir ao trono.
2ª parte: Fernão Lopes narra os acontecimentos ocorridos durante o reinado de D. João I.
Prólogo à Crónica de D. João I
Explicação do conteúdo
O Prólogo é um pequeno texto onde Fernão Lopes apresenta o seu projeto de trabalho.
Exemplos:
- A sua vontade é “escrever verdade sem outra mistura”, ou seja, contar apenas a verdade nua e crua;
- Pretende fazer o contrário dos seus antecessores porque devido à parcialidade surgiam erros, deturpação dos factos; a mentira; o desvio das fontes;
Fernão Lopes discordando destes métodos diz que vai fazer diferente: “nós certamente levando outro modo, poosta adeparte toda a afeiçom que por aazo1 das ditas razões aver podíamos, nosso desejo foi em esta obra escrever verdade, sem outra mestura, leixando nos boõs aqueecimentos2 todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao poboo quaisquer cousa, da guisa que aveerom2.”
Notas explicativas
1.Aazo=por causa
2. aquecimentos=acontecimentos
3.aveerom=aconteceram
- O cronista deve ser objetivo no que relata e para o conseguir deve pôr de lado a “mundanal afeiçom”, ou seja, o cronista não deve envolver os seus sentimentos no que escreve mesmo que sinta afetos e simpatia pelas pessoas, ou acontecimentos, de que fala.;
- A crónica deve ser o mais objetiva possível, por isso, obriga o cronista a que não se desvie “da dereita estrada”, ou seja, do caminho da verdade;
- O objetivo de escrever verdade não impede que exista a possibilidade de errar. Para Fernão Lopes, o erro pode acontecer, mas não deve ser intencional;
- Escrever crónicas para serem lembradas mais tarde exige, “ordenar estó
rias”, ou seja, escrever os acontecimentos de forma organizada;
- “ordenar estórias” exige recorrer a muitas e boas fontes de informação e a propósito afirma, “Ó! Com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros de desvairadas4 linguageês e terras! e isso mesmo públicas escrituras de muitos cartórios e outros lugares, nos quais, depois de longas vegílias e grandes trabalhos mais certidom5 aver nom podemos da conteúda em esta obra.”
Notas explicativas
4.desvairadas=diferentes
5.certidom=certeza
Maneira como Fernão Lopes organizou as “estórias”
Tendo muitas “estórias” para contar, (“fazem-se muitas coisas ao mesmo tempo”), Fernão Lopes tem dificuldade em as coordenar e para isso recorre, essencialmente, a dois processos:
Primeiro processo:
- Ordenar as diversas “estórias” em torno de pontos de ligação entre si.
Exemplo: Crónica de D. João I em que se distinguem-se dois grandes capítulos que têm pontos de ligação: o cerco de Lisboa e a Batalha de Aljubarrota: abrangem todo o país e toda a situação política e social de Portugal
Segundo processo:
- Criação de um segundo plano que dá relevo aos acontecimentos principais e ao espaço social e que se baseia na sua grande experiência de vida e na sua origem viloa (não nobre).
Assim, os pormenores surgem integrados num ambiente geral.
Exemplo
- Apresentação dos levantamentos de Lisboa, Évora, Porto... evocando, em breves traços, a divisão entre os grandes e os pequenos;
- Apresentação dos cercos dos Castelos pelos “ventres ao sol” (povo);
- Apresentação dos pendões (bandeiras) que se levantam aos gritos de “Portugal, Portugal”, pelo Mestre de Avis;
- Apresentação da discórdia entre mulheres e maridos, irmãos e irmãs, pais e filhos.
Método utilizado após a recolha
- A sua preocupação era com o conteúdo por isso afirma que não dispunha de tempo para aformosear o que escreve, “Se outros per ventuira em esta crónica buscam fremosura e novidade de palavras , e nom a certidom das estórias , desprazer-lhe-à de nosso razoado, muito ligeiro a eles d’ouvir e nom sem gram trabalho a nós de ordenar.”
Nota: apesar de dizer que não se preocupava com a forma como escrevia mas apenas com o conteúdo Fernão Lopes apresenta páginas e páginas de uma enorme beleza, numa linguagem viva, com caraterísticas de uma reportagem, como o retrato que faz da revolução de 1383-85, do levantamento do povo de Lisboa que rejeita ver o país perder a independência e escolhe para seu novo rei o Mestre de Avis. Uma reportagem usando figuras de estilo; sensações visuais, auditivas...
II
Fernão Lopes
Parte prática
Teste nº 1
Excerto do Prólogo da crónica de D. João I / Questionário / Sugestão de respostas
Grande licença deu a afeiçom a muitos que teverom cárrego d'ordenar estorias, moormente dos senhores em cuja mercee e terra viviam e u forom nados seus antigos avoos, seendo-lhe muito favorávees no recontamento de seus feitos; e tal favoreza como esta nace de mundanal afeiçom, a qual nom é salvo conformidade dalgüa cousa ao entendimento do homem. Assi que a terra em que os homeés per longo costume e tempo forom criados geera üa tal conformidade antre o seu entendimento e ela que, avendo de julgar algüa sua cousa, assim em louvor como per contrairo, nunca per eles é dereitamente recontada; porque, louvando-a, dizem sempre mais daquelo que é; e, se doutro modo, nom escrevem suas perdas tam minguadamente como acontecerom. Outra cousa geera ainda esta conformidade e natural inclinaçom, segundo sentença dalguüs, dizendo que o pregoeiro da vida, que é a fame, recebendo refeiçom pera o corpo, o sangue e espritos geerados de taes virandas tem üa tal semelhança antre si que causa esta conformidade. Alguüs outros teveron que esto decia na semente, no tempo da geeraçom; a qual despõe per tal guisa aquelo que dela é geerado, que lhe fica esta conformidade tam bem acerca da terra como de seus dívidos.
(…) Nós certamente levando outro modo, posto adeparte toda a afeição, que por aazo das ditas razões haver podíamos, nosso desejo foi em esta obra escrever verdade sem outa mistura, leixando nos boõs aquecimentos todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao poboo quaes quer contrairas cousas da guisa que aveerom.
E se o Senhor Deos a nós outorgasse o que a alguns escrevendo não negou, convém a saber, em suas obras clara certidom da verdade, sem dúvida nom somente mentir do que sabemos, mas ainda errando, falso nom queríamos dizer; como assi seja que outra cousa nom é errar, salvo cuidar que é verdade aquilo que é falso. E nós enganando per ignorância de velhas scrituras e desvairados autores, bem podíamos ditando errar; porque screvendo homem do que nom é certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais alrgo do que deve; mas mentira, em este volume, é muito afastada da nossa vontade. Ó! Com quanto cuidado e deligência vimos grndes volumes de livros, de desvairadas linguageês e terras; e isso mesmo públicas escrituras de muito cartórios e outros logares, nas quaes sepois de longas vegílias e grandes trabalhos, mais certidom haver nom podemos da conteúda em esta obra.
E sendo achado em alguns livros o contrairo do que ela fala, cuidae que nom sabedormente, mas errando muito, disserom taes cousas. Se outros por ventuira em esta crónica buscam fremosura e novidade de palavras, e nom certidom das estórias, desprezer-lhe-á de nosso arrazoado, muito ligeiro a eles d’ouvir, e nom sem gram trabalho a nós de ordenar.
(…)
Fernão Lopes, Crónica de D. João I (Prólogo)
Questionário e sugestões de respostas
1. Identifique, neste excerto, os erros apontados por Fernão Lopes aos historiadores anteriores a ele.
Segundo Fernão Lopes os historiadores anteriores a ele eram parciais, ou seja, não contavam toda a verdade: não contavam os acontecimentos tal como aconteciam, alteravam-nos ou desviavam-se das fontes, “Assi (...) os homeés avendo de julgar algüa sua cousa,(...) dizem sempre mais daquelo que é; e, se doutro modo, nom escrevem suas perdas tam minguadamente como acontecerom”.
2. Identifique as causas que conduziram a tais erros
As causas principais da parcialidade eram:
- A grande afeição “tal favoreza como esta nace de mumdanal afeiçom”;
- O amor à sua pátria, a terra, “u forom nados seus antigos avoos;
- A necessidade de agradar aos senhores dos quais dependiam economicamente, “em cuja mercee e terra viviam (...) seendo-lhe muito favorávees no recontamento de seus feitos”.
3. Qual era o conceito de história para Fernão Lopes? Justifique as suas afirmações com expressões do texto.
Ao contrário dos cronistas anteriores, Fernão Lopes era imparcial, “Nós certamente levando outro modo, posto adeparte toda a afeição (...) todo fingido louvor”.
Para ele a história (“estória”) era:
- A procura da certeza;
- O relato objetivo da verdade nua e crua, sem qualquer espécie de subjetividade, “nosso desejo foi em esta obra escrever verdade sem outra mistura (...) e nuamente mostrar ao poboo quaes quer contrairas cousas da guisa que aveerom.”
4. Qual o método que Fernão Lopes pretende seguir para chegar à verdade dos factos?
- Procura constante da verdade dos factos recorrendo a todas as fontes possíveis;
- Investigação profunda de toda a documentação encontrada;
- Ordenação da documentação;
- Análise profunda de toda a documentação.
Teste nº 2
Comente a seguinte citação de Hernani Cidade tendo por base excertos da Crónica de D. João I
Citação de Hernani Cidade
“Fernão Lopes é um grande poeta (…) porque era dotado de uma bela fantasia imaginativa (…) de irradiante simpatia humana, sensível às dores e alegrias do passado como se presentes fossem, vibrante, às vezes, de sugestiva eloquência.”
Sugestões de resposta
- Fernão Lopes, na Crónica de D. João I, dá uma visão real da sociedade portuguesa através da reconstituição dos acontecimentos que trata com veracidade mas, sendo “um belo poeta (...) dotado de uma bela fantasia imaginativa” fá-lo com originalidade, vivacidade, dramatismo, animação.
- Narra os acontecimentos com bastante detalhe, dando-lhes grande visualismo, de tal forma que ao lermos as suas páginas parece estarmos a visualizar os acontecimentos como se estivéssemos presentes: Fernão Lopes convida os seus leitores a participar dos acontecimentos através interrogações, exclamações, apelos à imaginação e à simpatia pelo povo que é o herói da sua crónica. Este é o seu estilo: a oralidade, o estilo coloquial onde Fernão Lopes parece estar a conversar diretamente com o leitor.
- Fernão Lopes, “sensível às dores”, apresenta-nos o povo, a “arraia miúda” com o seu patriotismo a assumir o papel principal na nomeação do Mestre de Avis, como futuro rei de Portugal; o povo que se dedica empenhadamente na preparação do cerco de Lisboa devido à invasão de Portugal pelos Castelhanos; o povo, com o Mestre à frente, que se reúne em Lisboa para lutar contra os castelhanos; o povo que sofre pela necessidade de ter que pôr fora do cerco os que não tinham condições para lutar; o povo que sofre horrores durante o cerco: medos, fome, miséria devido à falta de alimentos, “que era triste coisa de ver (…) desfalecia o leite às mulheres que tinham crianças para amamentar (…) e toda a cidade estava de luto (…) e ficavam de joelhos, bradavam a Deus que lhes acorresse.”. Fernão Lopes conta-nos tudo isso ao pormenor, com realismo mas também com grande sensibilidade, usando adjetivos e nomes, revelando grande “simpatia humana”.
- Mas Fernão Lopes não é apenas sensível às dores do povo, ele transmite-nos igualmente, com o mesmo génio literário as “alegrias do passado como se presentes fossem”. São exemplo as páginas da Crónica de D. João I que se referem à ida de D. João I, ao Porto. O narratário/leitor pode imaginar todo o colorido do ambiente de alegria transmitido, por Fernão Lopes, através de sensações visuais, visto que nos retrata as naus enfeitadas de ramos verdes, bandeiras e estandartes; os homens que vestiam camisas de ramos e flores; as janelas enfeitadas com ramos de louro e o chão atapetado de flores.
- Podemos, também, imaginar a alegria do povo através de sensações auditivas: as mulheres cantavam cantigas em louvor do Rei; o povo acorreu com gritos de contentamento a tocar trombetas. Os odores também não deixaram de estar presentes, porque as ruas estavam enfeitadas com ervas de bons cheiros e as portas estavam defumadas de tantos nobres cheiros.
- O visualismo está igualmente presente através da utilização de verbos de movimento muito sugestivos como, por exemplo, quando nos descreve a ida do povo aos Paços da Rainha, pensando que iam matar o Mestre de Avis. Ao lermos estas páginas podemos imaginar toda a agitação visto que o pajem “começou de ir rijamente”, as pessoas “saíam”; “começavam de tomar armas”(…) correndo à pressa (…) atravessavam lugares escusos”; o recurso às sensações auditivas retrata-nos o ruído provocado pelas vozes, “soaram as vozes do ruído (…) ouvindo todos (…) deles bradavam”.
- Fernão Lopes retrata todas estas alegrias (ida do Mestre ao Porto) ou tristezas (cerco de Lisboa) com tanto realismo e, ao mesmo tempo, com tanta sensibilidade e tanta “eloquência” que parece que ele próprio viveu “essas dores e alegrias do passado como se presentes fossem” e fê-lo de uma maneira tão bela que se assemelha a “um grande poeta”.
Teste nº3
Desenvolva, numa composição cuidada,
o tema que se segue
Tema
O herói em Fernão Lopes
Sugestões de resposta
O herói de Fernão Lopes é o povo: a “arraia miúda” que ele coloca a atuar na cidade de Lisboa em episódios como, por exemplo, no cerco, por ocasião da invasão dos castelhanos, ou quando nos descreve a ida do povo aos Paços da Rainha pensando que iam matar o Mestre de Avis. Ao lermos estas páginas podemos imaginar todo o drama, dado pelo movimento e visualismo representados na agitação do pajem que “começou de ir rijamente”; nas pessoas que “saíam” e “começavam de tomar armas”, bem como no ruído provocado pelas vozes do povo, “soaram as vozes do arruído…ouvindo todos…deles bradavam”. Todas estas descrições maravilhosas existem em função da sociedade (povo) para defender o seu reino das mãos dos Castelhanos. Fernão Lopes revela, portanto, grande simpatia humana, grande carinho ao evidenciar a solidariedade, o patriotismo do povo quando, com o Mestre à frente todos se reúnem em Lisboa em que o povo corria grandes riscos de ser apanhado pelos Castelhanos mas não desistia de lutar. Dada a falta de alimentos foi necessário pôr fora do cerco todos aqueles que não estavam aptos a defender o país: as crianças, as prostitutas, os velhos e os doentes.
São muito importantes tanto os verbos de movimento como os adjetivos que nos pintam todo o drama das mães que choravam porque não tinham comida para dar aos seus filhos; as suas preces a Deus. Todo o drama vivido pelo povo é dado com grande realismo, como se fosse uma fita cinematográfica que passa à nossa frente quando lemos os seus textos.
Teste Nº 4.
Comente a afirmação de Alexandre Herculano sobre Fernão Lopes
Afirmação
“Fernão Lopes adivinhou os princípios da moderna história: a vida dos tempos de que escreveu transmitiu-a à posteridade, e não, como outros fizeram, somente um esqueleto de sucessos políticos e de nomes célebres. Nas crónicas de Fernão Lopes não há só história: há poesia e drama, há a Idade Média com sua fé, seu entusiasmo ou amor de glória.”
Sugestões/tópicos para desenvolver o comentário
- Recusou a “mundanal afeição”;
- Perseguiu a simples verdade, nua e crua, “sem outra mistura”;
- Procurou evitar o erro “por ignorância de velhas escrituras”; em documentação discordante optou pela que lhe parecia melhor ou deixou ao leitor as versões que encontrou;
- Recusou a mentira e a parcialidade;
- A séria investigação foi o seu caminho para a certeza;
- (…)
Teste nº 5
Excerto da Crónica de D. João I (Capítulo XI) / Notas explicativas/ Questionário /Sugestão de respostas
(…) Soarom as vozes do arruido pela cidade ouvindo todos braadar que matavom o Meestre, e assi como viúva que rei não tinha, e como se lhe este ficara em logo de marido, se moverom todos com mão armada, correndo a pressa pera u deziam que se esto fazia, por lhe darem vida e escusar1 morte. Alvoro Paaez nom quedava d’ir pera alá, bradando a todos:
- Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre que matam sem por quê!
A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer. Nom cabiam pelas ruas principaes, e atravessavom logares escusos, desejando cada uû de seer o primeiro; e preguntando uûs aos outros quem matava o Meetre, nom minguava2 quem responder que o matava o Conde Joam fernandez, per mandado da rainha.
E por voontade de Deos todos feitos dum coraçom com talento de o vingar, como forom aas portas do Paaço que eram já çarradas, ante que chegassem, com espantosas palavras começarom de dizer:
- U matom o Meetre? Que é do Meestre? Quem çarrou estas portas?
Ali eram ouvidos braados de desvairadas maneiras.Taes i havia que certificavom que o Meestre era morto, pois as portas estavam çarradas, dizendo que as britassem3 pera entrar dentro, e veeriam que era do Meestre, ou que cousa era aquela.
Deles braadavam por lenha, e que veesse lume pera poerem fogo aos Paços, e queimar o traidor e a aleivosa4 . Outros se aficavom pedindo escaadas pera sobir acima, pera veerem que era do Meestre; e em todo esto era o arruído atam grande que se nom entendiam uûs com os outros, nem determinavom neûa cousa. E nom somente era esto aa porta dos Paaços, mas ainda a redor deles per u homeês e mulheres podiam estar.
Ûas viinham com feixes de lenha, outras tragiam carqueija pera acender o fogo cuidando queimar o muro dos Paaços com ela, dizendo muitos doestos5 contra a Rainha.
De cima nom minguava quem braadar que o Meestre era vivo, e o Conde Joam Fernandez morto; mas isto nom queriam neuû crer, dizendo:
- Pois que vivo é, mostrae-no-lo e vee-lo-emos.
Entom os do Meestre veendo tam grande alvoroço como este, e que cada vez se acendia mais, disserom que fosse sua mercee de se mostrar aqueelas gentes, doutra guisa poderiam quebrar as portas, ou lhe poer o fogo, e entrando assi dentro per força, nom lhe poderiam depois tolher de fazer o que quisessem.
(…) E sem dúvida se eles entrarom dentro, nom se escusara a Rainha de morte, e fora maravilha quantos eram da sua parte e do Conde poderem escapar. O Meestre estava aa janela, e todos oolhavom contra ele dizendo:
- Ó Senhor! Como vos quiserom matar per traiçom, beendito seja Deos que vos guardou desse treedor! Viinde-vos, dai ao demo esses Paaços, nom sejaes lá mais.
E em dizendo esto, muitos choravom com prazer de o veer vivo.
Fernão Lopes, Crónica de D. João I, cap. 11
Notas explicativas
escusar-evitar
minguava-faltava
britassem-arrombassem
aleivosa-adúltera e perversa (traidor= Conde Andeiro; aleivosa=Leonor Teles)
doestos- injúrias
Questionário Sugestões de respostas
1. Fale sobre o conteúdo do excerto.
Sugestões de resposta
Fundamentalmente este excerto põe em relevo o sentido patriótico e coletivo de interajuda, do povo português:
- Álvaro Paes mais o pagem gritavam pela cidade para que todos acudissem ao Mestre porque era filho de D. João I (“Acorramos ao Meestre, ca filho de he d’el-Rei D. Pedro”);
- O povo armou-se e acorreu para o local (Palácio da Rainha) onde diziam que estavam para matar o Mestre (“Soaram as vozes do arroído pela cidade, ouvimdo todos bradar que matavom o Mestre”);
- O objetivo do povo era impedir que matassem o Mestre e interrogando-se de quem faria tal coisa ao que alguns respondiam ser o Conde Andeiro por ordem de Leonor Teles (“nom minguava quem respondesse que o matava o Conde Joham fernamdez, per mamdado da rainha”);
- O povo tomou todas as atitudes possíveis para libertar o Mestre e revelou um grande amor patriótico (desejava o Mestre para defender Portugal dos Castelhanos);
-Pensando que iam matar o Mestre, o povo, acorreu imediatamente e alvoroçadamente com grande dinamismo (“A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer. Nom cabiam pelas ruas principaes, e atravessavom logares escusos, desejando cada uû de seer o primeiro”);
- O povo revela detestar a Rainha, “todos feitos dum coraçom”(...) e “dizendo muitos doestos5 contra a Rainha”.
2. Divida o conteúdo em partes lógica e faça uma síntese de cada uma delas.
Sugestões de resposta
Do início até “que o matava o Conde Joam Fernandez, per mandado da rainha”: Fernão Lopes mostra-nos como reagiu o povo depois de convocado por Álvaro Paes para acorrer aos Paços da Rainha - o povo ficou curioso e foi solidário.
A partir de “E per vontade de Deeos” até “- Pois de vivo é, mostrae-no-lo e vee-lo-emos” encontramos o povo concentrado às portas dos Paços numa grande agitação reagindo contra a Rainha e o Conde Andeiro em atitudes de solidariedade para com o Mestre e amor à pátria estando mesmo prontos para queimar as portas dos Paços se tal fosse preciso o que levou à necessidade, por parte do Mestre, de se vir mostrar ao povo para que este acalmasse e o aclamasse.
3. Indique e demonstre algumas marcas de realismo no discurso de Fernão Lopes expressas neste excerto, não esquecendo de fazer referência a:
- sensações auditivas e visuais.
Sugestões de resposta
Uma das mais belas caraterísticas do discurso de Fernão Lopes é o realismo que imprime aos factos que conta. Neste excerto encontram-se marcas desse realismo em momentos como, por exemplo, no pormenor descritivo e no dramatismo. Podemos imaginar toda a agitação, movimento e sentimentos do povo de Lisboa.
O realismo encontra-se logo de início nos gritos dinamizadores da ação (“Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre”) e que tiveram o impacto previsto: alertar o povo e pô-lo a agir. A descrição do povo a agir imprime-lhe tal dinamismo que não é difícil ao narratário / leitor imaginar toda a agitação do povo que, tal como é próprio de multidões, agiu sem pensar, por impulso e amor patriótico e foi assim que o povo de Lisboa foi armado a correr atrás daquelas vozes sem saber ao certo o que se estava a passar. Corriam e gritavam queriam entrar no Paço de qualquer maneira. A utilização de verbos de movimento contribui para transmitir todo este realismo e dinamismo (“se moverom todos” …correndo a pressa”… “A gente começou de se juntar” … “e atravessavom logares escusos, …”.
Igualmente importantes são as sensações auditivas pois sugerem também a agitação e o movimento do dinamizador da ação e do povo (“soaram as vozes do arruído”…“ouvindo todos braadar”… “com espantosas palavras começaram de dizer”… “eram ouvidos braados de desvairadas maneiras”.) Não menos importante são as sensações visuais de que se salienta (“se moveram todos com mão armada, correndo a pressa”… “era tanta que era estranha cousa de ver”…”as portas do Paaço que eram já çarradas”).
4. Fale sobre marcas da linguagem e do estilo.
Sugestões de respostas
- Estilo simples, quase familiar, cujas funções da linguagem que se destacam são: função informativa, função apelativa e função emotiva;
- Realismo descritivo e visualismo, pormenores realistas; descrição perfeita e objetiva, simultaneidade de ação; sugestões de movimento…;
- Arcaísmos, “u=onde; bradar; per=para; alá=lá…”;
- Anacolutos, “A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de ver”;
- Imagens sugestivas “Soaram as vozes do arruído pela cidade ouvindo todos bradar que matavom o Meestre”;
- Comparações, “e assi como viúva que rei non tinha”;
- Interrogações retóricas, “U matam o Meetre? Que é do Meetre?;
- Apóstrofe e exclamações, “Ó Senhor! Como vos quiserom matar per traiçom, beendito seja Deos que vos guardou desse treedor!.
Teste nº 6
Excerto da Crónica de D. João I / Notas explicativas/ Questionário /Sugestão de respostas
Pero1 fosse já alta noite, logo foi sabudo pella cidade como veera recado da frota que jazia jaa em Cascaaes, e que em outro dia avia de emtrar e pellejar com a frota2 de Castella; e quamdo esto soou e foi sabudo per toda a cidade, de quamto cuidado e esperamça forom cheos os corações dos moradores della, nom he leve de dizer. Eles aviam gramde prazer, teemdo esperamça que pellejamdo a sua frota com a de Castella, e a veemcemdo , que ficaria a cidade desabavada3 da parte do mar4 e poderiam aver mamtiimemtos per elle, de que eram muito mimguados; e vemcida a frota , era per força gaamçarem5 parte della, por a qual razom viimria tal perda aos Castellaãos, que per vemtuira seeria aazo6 de el-Rei de Castella decercar a cidade.
Doutra parte aviam temor e receo, quamdo comsiiravom como a frota de Castella era muito mais que a sua, e armada de muitas e boas gemtes, e a gramde ajuda que podia aver do arreall d’el-Rei que tam preto7 tiinha, se lhes comprisse; e seemdo a frota de Portugall veemcida, a gram perda que tôdollos demais averiam de padres e filhos, e maridos e irmaãos, e doutros seus paremtes que pereceriam per morte. Aallém desto, outro gram mal que lhes era prestes, convém a saber, a cidade posta em tamta pressa8 e amgustura9, que nom soomemte de todo perderiam esperamça de sua deffemssom, mas aimda acomtecemdo-lhes tall cousa, de em breves dias caírem per força nas sanhosas10 maãos de tam mortaaes emmiigos, pera usarem deles a seu livre tallamte11.
E estes tam forçosos12 cuidados, os fez logo levamtar todos, assi homeês como molheres, que nom poderam mais dormir; e falamdo das janelas uûs aos outros, assi em estas cousas, como na pelleja do seguimte dia, começou de se geerar per toda a cidade uû gramde rumor e alvoroço de falla; o qual duramdo per lomgo espaço, foi aazo de cedo tamgerem aas matinas, moormemte em noites pequenas. Em esto começarom as gemtes de se ir aas, egrejas e moesteiros com candeas acesas nas maãos, fazemdo dizer missas e outras devaçoões com gramdes prezes13 e muitas lágrimas.
Quall estado14 nem modo de viver era entom isemto deste cuidado? Certamemte nem um; porque nom somente as leigas pessoas, mas aimda as religiosas, todas eram postas so15 o gramde manto de tal pensamento; como assi seja, que do vemcimento16 ou do seu comtrairo, cada uns esperavom de receber parte.
Quall seria o peito tam duro de piedade, que nom fosse amollemtado17 com a maviosa18 compaixom, veemdo as egrejas cheas d’homens e de molhers com os filhos nos braços, todos braadando a Deos que lhes acorresse, e que ajudasse a casa de Portugall? Certas nenhum, salvo se fosse nom limdo19 portugees; e assi gastarom boa parte da noite, ataa manhãa, ums em lágrimas e devotas orações, outros em se correger20 e fazer prestes comtra os emmigos.
Crónica de D. João I, (1ª parte)
Notas explicativas
1. embora
2. Frota organizada no Porto e destinada a combater a armada Castelhana
3. desabafada
4. Rio Tejo
5. ganharem
6. ocasião, causa
7. perto
8. opressão, sobressalto
9. Angústia
10. Irados, raivosos
11. Que fariam deles o que quisessem
12. Dolorosos
13. Preces
14. Que situação social
15. Sob
16. Vitória
17. Comovido
18. Suave
19. Legítimo
20. Preparar
Questionário
1. Sintetize os acontecimentos contidos neste excerto.
Este excerto insere-se no momento de esperança e dramatismo que se vivia em Portugal sabendo-se que os Castelhanos iriam invadir Lisboa.
2. Divida o texto em partes lógicas e indique as principais ideias expressas em cada uma delas.
Primeira parte: do início do excerto até “…descercar a cidade.”
Reação do povo de Lisboa perante a informação de que a frota organizada no Porto, para vir ajudar os portugueses a combater os Castelhanos se encontrava já em Cascais- alegria e esperança: “Pero fosse já alta a noite, logo foi sabudo pella cidade como veera recado da frota que jazia jaa em Cascaaes (…) Elles aviam gramde prazer, teemdo esperamça (…) por a qual razom viiriam tall perda aos castellaãos (…) que per vemtuira seeria aazo de el-Rei de Castela descercar a cidade”.
Segunda parte: desde “Doutra parte” até “ (…) a seu livre tallamte”.
É-nos dado conhecimento do medo que as pessoas tinham devido à superioridade do exército castelhano e das consequências que podiam daí advir: muitas mortes para uns e a subjugação aos castelhanos para os que sobrevivessem - “aviam temor e receio quamdo consiiravom como a frota de Castella era muito mais que a sua (…) e seemdo a frota de Portugal veemcida a gram perda que tôdolos demais averiam (…) que nom somente (…) perderiam a esperamça de sua deffemssom (…) mas (…) caírem (…) nas sanhosas maãos (…) de tam morttes emmiigos, pera usarem delles a seu livre tallamte”.
Terceira parte: inicia-se em “E estes tam forçosos” e vai até “de receber parte”.
Decisão de atuar e tentar defender a Pátria através de orações: “os fez logo levantar (…) e fallamdo das janelas ums aos outros (…) começou de se gerar (...) um grande rumor e alvoroço (…) o qual (…) foi algo de cedo tamgerm aas matinas (…) começaram as gentes de se ir aas egrejas e mosteiros (…)”.
Quarta e última parte: é um juízo de valor do autor em que elogia a comovente atuação do povo para defender o país: “Quall seria o peito tam duro de piedade (…) Certas nenhum, salvo se fosse nom limdo português”.
3. Identifique a personagem focada.
A personagem focada é o povo português, a coletividade.
4. Explique o significado da expressão:
“que per vemtura seeria aazo de el-Rei de Castela decercar a cidade”.(l. 9 e 10).
Seria motivo para o Rei de Castela sair de Portugal.
5. Refira o ponto de vista e o posicionamento adotado pelo autor/narrador relativamente aos factos narrados.
O narrador/autor quanto à presença é heterodiegético, ou seja, um observador que vai contando os factos, mas não é nenhuma das personagens ativas: “Eles aviam”. Revela, no entanto, ser conhecedor dos sentimentos íntimos do povo, como se fosse um Deus. Portanto, quanto à ciência é narrador omnisciente: “Eles aviam gram prazer, tendo esperança”...doutra parte avia temor e receio”.
Teste nº 7
Excerto da Crónica de D. João I (Capítulo CXLVIII) / notas explicativas / questionário / sugestões de respostas.
Das tribluaçoões que Lixboa padecia per míngua de mantiimentos
Estando a cidade assi cercada na maneira que já ouvistes gastavam-se os mantimentos cada vez mais, por as muitas gemtes que em ella avia. Assi dos que se colherom dentro, do termo1 de homeês aldeaãos com molheres e filhos, come dos que veerom na frota do Porto; e alguuûs se tremetiam2 aas vezes em batees e passavom de noite escusamente3 comtra as partes do Ribatejo, e mantemdo-se em alguûs esteiros4 ali carregavom de trigo (…).E posto que tall trigo alguûa ajuda fezesse , era tam pouco e tam raramente, que ouvera mester de o multiplicar como fez Jhesu Christo aos paães com que fartou cimquo mil homeês.(…) veemdo a gram míngua de mantimentos , estabelecerom deitar fora as gemtes minguadas5 e nom perteecemtes 6 pera deffemsom;e esto foi feito duas ou três vezes,ataa lamçarem fora as mancebas mundairas7 e judeus e outros semelhamtes (…) Na cidade nom avia trigo pera vender , e, se avia era mui pouco e tam caro, que as pobres gemtes nom podiam chegar a elle; ca valia o alqueire quatro livras; e o alqueire de milho quarenta soldos.(…) e padeciam mui apertadamente (…) e começarom de comer pam de bagaço d’azeitona, e dos queijos das malvas e raízes d’ervas, e d’outras desacostumadas cousas (…) No lugar u costumavom vender o trigo amdavom homeês e moços esgaravatamdo a terra; e, se achavom algums graãos de trigo metiam-nos na boca, sem tendo outro mantimento; outros se fartavom d’ervas, e beviam tamta água, que achavom mortos homeês e cachopos jazer imchados nas praças e em outros logares.(…).Amdavom os moços de três e de quatro anos pedimdo pella cidade por amor de Deos (…) e muitos nom tiinham outra cousa que lhe dar senom lágrimas (…) que era cousa triste de veer; e se lhes davom tamanho pam come ua noz, aviam-no por gramde bem.(…) Pero, com todo esto, quamdo repicavom, nenhum nom mostrava que era famiinto, mas forte e rijo comtra seus emmiigos. (…). Os padres e madres viiam estalar de fame os filhos que muito amavom, rompiam as faces e peitos sobr’elles, nom teemdo com que lhe acorrer, senom plamto8 e espargimento9. de lágrimas, e sobre todo isto, medo gramde da druell vimgamça que emtemdiam que el-Rei de castella d’elles avia de tomar; assi eles padeciam duas gramdes guerras, uma dos emmiigos que os cercados tiinam, e outra dos mantimentos que lhes minguavom.
Crónica de D. João I (Capítulo CXLVIII)
Notas explicativas
1.limite
2. metiam dentro
3. em segredo
4. braços de rio
5. diminuídos, deficientes
6. capazes
7. meretrizes
8. pranto
9. derramamento
Questionário / Sugestões de respostas
1. Com base no excerto demostre o rigor da descrição relativa á falta de alimentos e às tentativas para alterar a situação.
Fernão Lopes dá-nos uma visão realista do drama vivido pelo povo português, em Lisboa, durante o cerco efetuado pelos castelhanos (Lisboa estava cercada por terra e pelo rio para impedir a entrada de mantimentos e socorro).
Exemplos da falta de alimentos dada pelo pormenor descritivo, numa progressão ascendente:
- “gastavom-se os mantiimemtos cada vez mais”;
- As pessoas “passavom de noite escusamente3 comtra as partes do Ribatejo, e mantemdo-se em alguûs esteiros4 ali carregavom de trigo (…);
- E posto que tall trigo alguûa ajuda fezesse , era tam pouco e tam raramente, que ouvera mester de o multiplicar como fez Jhesu Christo aos paães”;
- “Na cidade nom avia trigo pera vender, e, se avia era mui pouco e tam caro, que as pobres gemtes nom podiam chegar a elle”;
- As pessoas “padeciam mui apertadamente (…) e começarom de comer pam de bagaço d’azeitona, e dos queijos das malvas e raízes d’ervas, e d’outras desacostumadas cousas”;
- “No lugar u costumavom vender o trigo amdavom homeês e moços esgaravatamdo a terra; e, se achavom algums graãos de trigo metiam-nos na boca, sem tendo outro mantimento”;
- “outros se fartavom d’ervas, e beviam tamta água, que achavom mortos homeês e cachopos jazer imchados nas praças e em outros logares.(…).”;
- “Amdavom os moços de três e de quatro anos pedimdo pella cidade por amor de Deos (…)”;
- “e muitos nom tiinham outra cousa que lhe dar senom lágrimas (…) e se lhes davom tamanho pam come ua noz, aviam-no por gramde bem.(…)”;
- Os padres e madres viiam estalar de fame os filhos que muito amavom, rompiam as faces e peitos sobr’elles, nom teemdo com que lhe acorrer, senom plamto8 e espargimento9. de lágrimas”;
; “eles padeciam duas gramdes guerras, uma dos emmiigos que os cercados tiinam, e outra dos mantimentos que lhes minguavom.”
- O próprio narrador no seu estilo coloquial dialoga com o narratário / num desabafo dizendo, “que era triste cousa de ver”.
Tentativas para alterar a situação
- “estabellecerom deitar fora as gemtes mimguadas e nom perteecemtes pera deffemssom”, ou seja, pôr fora do cerco todos aqueles que não fossem úteis na defesa da cidade para que não gastassem com eles os poucos mantimentos que possuíam: judeus, prostitutas, velhos.
- Não desistiam de lutar, “Pero, com todo esto, quamdo repicavom, nenhum nom mostrava que era famiinto, mas forte e rijo comtra seus emmiigos. (…).
2. Ponha em evidência recursos estilísticos presentes no excerto.
- Estilo coloquial (o narrador trava um diálogo com o narratário/leitor), “Estando a cidade assi cercada na maneira que já ouvistes”;
- Discurso emotivo, (através da função apelativa da linguagem dada por adjetivos), “pobres gentes…triste cousa);
- Comparação, “ouvera mester de o multiplicar como fez Jhesu Christo aos paães”);
- Metáfora, “esgaravatando a terra”;
- Hipérbole, “viiam estalar de fame os filhos”.
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