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A Natureza a renovar-se-Chegou a Primavera!

 

Garcia de Resende-Escritor português do final do século XV e início do XVI-Trovas à morte de Inês de Castro que, depois de morta, foi rainha


Homem do Renascimento
Poeta
Cronista 
Músico
 Desenhador
  Arquitecto humanista

Deve ter nascido em 1470, em Évora,

Faleceu em 3 de Fevereiro de 1536  em Évora

Escreveu as famosas Trovas à morte de Inês de Castro  (1516) que são o mais antigo documento poético conhecido sobre o assunto

  

Senhoras, s'algum senhor

vos quiser bem ou servir,

quem tomar tal servidor,

eu lhe quero descobrir

o galardam do amor.

Por Sua Mercê saber

o que deve de fazer

vej'o que fez esta dama,

que de si vos dará fama,

s'estas trovas quereis ler.


Fala D. Inês


Qual será o coraçam

tam cru e sem piadade,

que lhe nam cause paixam

úa tam gram crueldade

e morte tam sem rezam?

Triste de mim, inocente,

que, por ter muito fervente

lealdade, fé, amor

ó príncepe, meu senhor,

me mataram cruamente!


A minha desaventura

nam contente d'acabar-me,

por me dar maior tristura

me foi pôr em tant'altura,

para d'alto derribar-me;

que, se me matara alguém,

antes de ter tanto bem,

em tais chamas nam ardera,

pai, filhos nam conhecera,

nem me chorara ninguém.


Eu era moça, menina,

per nome Dona Inês

de Castro, e de tal doutrina

e vertudes, qu'era dina

de meu mal ser ó revés.

Vivia sem me lembrar

que paixam podia dar

nem dá-la ninguém a mim:

foi-m'o príncepe olhar,

por seu nojo e minha fim.


 Começou-m'a desejar,

trabalhou por me servir;

Fortuna foi ordenar

dous corações conformar

a úa vontade vir.

Conheceu-me, conheci-o,

quis-me bem e eu a ele,

perdeu-me, também perdi-o;

nunca té morte foi frio

o bem que, triste, pus nele.


Dei-lhe minha liberdade,

nam senti perda de fama;

pus nele minha verdade

quis fazer sua vontade,

sendo mui fremosa dama.

Por m'estas obras pagar

nunca jamais quis casar;

polo qual aconselhado

foi el-rei qu'era forçado,

polo seu, de me matar.


Estava mui acatada,

como princesa servida,

em meus paços mui honrada,

de tudo mui abastada,

de meu senhor mui querida.

Estando mui de vagar,

bem fora de tal cuidar,

em Coimbra, d'assessego,

polos campos de Mondego

cavaleiros vi somar.


Como as cousas qu'ham de ser

logo dam no coraçam,

comecei entrestecer

e comigo só dizer:

"Estes homens donde iram?

E tanto que que preguntei,

soube logo qu'era el-rei.

Quando o vi tam apressado

meu coraçam trespassado

foi, que nunca mais falei.


E quando vi que decia,

saí à porta da sala,

devinhando o que queria;

com gram choro e cortesia

lhe fiz úa triste fala.

Meus filhos pus de redor

de mim com gram homildade;

mui cortada de temor

lhe disse: -"Havei, senhor,

desta triste piadade!"


"Nam possa mais a paixam

que o que deveis fazer;

metei nisso bem a mam,

qu'é de fraco coraçam

sem porquê matar molher;

quanto mais a mim, que dam

culpa nam sendo rezam,

por ser mãi dos inocentes

qu'ante vós estam presentes,

os quais vossos netos sam.


"E que tem tam pouca idade

que, se não forem criados

de mim só, com saudade

e sua gram orfindade

morrerám desemparados.

Olhe bem quanta crueza

fará nisto Voss'Alteza:

e também, senhor, olhai,

pois do príncepe sois pai,

nam lhe deis tanta tristeza.


"Lembre-vos o grand'amor

que me vosso filho tem,

e que sentirá gram dor

morrer-lhe tal servidor,

por lhe querer grande bem.

Que, s'algum erro fizera,

fora bem que padecera

e qu'este filhos ficaram

órfãos tristes e buscaram

quem deles paixam houvera;


"Mas, pois eu nunca errei

e sempre mereci mais,

deveis, poderoso rei,

nam quebrantar vossa lei,

que, se moiro, quebrantais.

Usai mais de piadade

que de rigor nem vontade,

havei dó, senhor, de mim

nam me deis tam triste fim,

pois que nunca fiz maldade!"


El-rei, vendo como estava,

houve de mim compaixam

e viu o que nam oulhava:

qu'eu a ele nam errava

nem fizera traiçam.

E vendo quam de verdade

tive amor e lealdade

ó príncepe, cuja sam,

pôde mais a piadade

que a determinaçam;


Que, se m'ele defendera

ca seu filho não amasse,

e lh'eu nam obedecera,

entam com rezam podera

dar m'a morte qu'ordenasse;

mas vendo que nenhú'hora,

dês que naci até'gora,

nunca nisso me falou,

quando se disto lembrou,

foi-se pola porta fora,


Com seu rosto lagrimoso,

co propósito mudado,

muito triste, mui cuidoso,

como rei mui piadoso,

mui cristam e esforçado.

Um daqueles que trazia

consigo na companhia,

cavaleiro desalmado,

de trás dele, mui irado,

estas palavras dezia:


-"Senhor, vossa piadade

é dina de reprender,

pois que, sem necessidade,

mudaram vossa vontade

lágrimas dúa molher.

E quereis qu'abarregado,

com filhos, como casado,

estê, senhor, vosso filho?

de vós mais me maravilho

que dele, qu'é namorado.


"Se a logo nam matais,

nam sereis nunca temido

nem farám o que mandais,

pois tam cedo vos mudais,

do conselho qu'era havido.

Olhai quam justa querela

tendes, pois, por amor dela,

vosso filho quer estar

sem casar e nos quer dar

muita guerra com Castela.


"Com sua morte escusareis

muitas mortes, muitos danos;

vós, senhor, descansareis,

e a vós e a nós dareis

paz para duzentos anos.

O príncepe casará,

filhos de bençam terá,

será fora de pecado;

qu'agora seja anojado,

amenhã lh'esquecerá."


E ouvindo seu dizer,

el-rei ficou mui torvado

por se em tais estremos ver,

e que havia de fazer

ou um ou outro, forçado.

Desejava dar-me vida,

por lhe nam ter merecida

a morte nem nenhum mal;

sentia pena mortal

por ter feito tal partida.


E vendo que se lhe dava

a ele tod'esta culpa,

e que tanto o apertava,

disse àquele que bradava:

-"Minha tençam me desculpa.

Se o vós quereis fazer,

fazei-o sem mo dizer,

qu'eu nisso nam mando nada,

nem vejo essa coitada

por que deva de morrer."


Fim


Dous cavaleiros irosos,

que tais palavras lh'ouviram,

mui crus e nam piadosos,

perversos, desamorosos,

contra mim rijo se viram;

com as espadas na mam

m'atravessam o coraçam,

a confissam me tolheram:

este é o galardam

que meus amores me deram.



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